domingo, 24 de julho de 2011

Justiça e Julgamento

"Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós."
(Mateus, VII: 1-2).

Um dos atos mais comuns nessa vida é o de julgarmos o nosso semelhante. Se atentássemos um pouco mais e parássemos para refletir sobre essa máxima bíblica, conseguiríamos enxergar que nada somos para que julguemos alguém.
Todos, sem exceção de ninguém, já cometeu alguma falha nessa vida, algum erro do qual não se orgulha, alguma atitude da qual se arrepende. Se não cometeu ainda, com certeza uma hora ou outra, irá cometer. Há vários “tipos e graus” de erros; materiais, espirituais, erros que cometemos contra nós mesmos e/ou contra nossos semelhantes.
Mas não quero falar sobre os erros e sim falar sobre o hábito que o ser humano tem em julgar. Hábito esse que acaba por nos meter em situações muito complicadas e desagradáveis; estamos vivendo numa época em que os seres humanos acabam se esquecendo de como é realmente “ser um humano”; época em que temos (na teoria ao menos) o encurtamento das distâncias físicas, graças à televisão, rádio, telefone e internet, formas de comunicação que supostamente aproximam as pessoas, pois não importa se você mora no Brasil e teu amigo está no Japão hoje é muito mais fácil, rápido e prático manter contato com alguém.
Mas e o “contato” mesmo? O toque? A convivência? A proximidade? Onde é que nessa vida moderna de hoje de “encurtamento de distâncias”, temos tempo e disposição, para tudo isso?
Hoje em dia mal conseguimos conhecer a nós mesmos, uma prova disso é que sempre ouvimos a Espiritualidade nos pedindo que façamos uma reforma íntima, costumo comparar essa reforma à transição da lagarta para borboleta, todos precisamos de nossa crisálida para realmente descobrimos quem somos. E essa crisálida pode ser na forma de um recolhimento pessoal, o amparo dos Guias Espirituais, conselhos de amigos que estão a nossa volta, enfim, há várias maneiras de se tecer a nossa crisálida, basta querer.
Pois bem, o que será que reforma íntima tem a ver com julgamento? Eu digo que tudo, tem tudo a ver. Como é que podemos julgar nosso próximo se não conhecemos nem a nós mesmos, para que nos julguemos em primeiro lugar? Como é que podemos julgar nosso irmão, se não sabemos o que se passa no íntimo dele? O que o levou a cometer erros, o porquê e quais foram ás circunstâncias no momento? Isso levando em consideração que a ofensa ou erro cometido tenha sido contra outra pessoa e não a nós mesmos, porque se o ofendido somos nós, aí a coisa muda de figura, pois nosso emocional acaba interferindo em nosso julgamento.
Não podemos nos esquecer nunca de que há os dois lados numa mesma moeda certo? Quem garante que amanhã ou depois, não seremos nós a errar? E aí, gostaríamos de ser julgados, apedrejados, humilhados e ofendidos ou gostaríamos de amparo, ajuda e uma segunda chance para retificar o que foi feito de errado? Ninguém é perfeito, se assim fossemos não estaríamos aqui, encarnados, e sim dentro da morada divina do nosso Criador, pois Ele é O PERFEITO. E justamente por ser Ele perfeito e onisciente, criou em Sua sabedoria, divindades que representam Seus sentidos (Fé, Amor, Conhecimento, Justiça, Lei, Evolução e Geração), e no sentido da justiça, para nós que somos umbandistas e seguimos o fundamento da Umbanda Sagrada, a divindade responsável por nos julgar (entre outras atribuições que envolvem esse sentido) é nosso amado Pai Xangô.
Se Deus em sua infinita sabedoria, criou um ser para essa tarefa, porque então nós, que somos simples humanos presos a um ciclo reencarnatório evolutivo, somos tão prepotentes a ponto de achar que temos esse direito? Pode parecer extremista a minha opinião pessoal, mas eu digo e repito: Nós não temos esse direito! Se tivéssemos seríamos todos Xangôs e não Julianas, Marias, Josés, Joãos. Não há quem seja capacitado nessa vida em julgar sem cometer injustiças, não tem como, pois uma hora ou outra ao julgarmos alguém cometeremos alguma injustiça, e aí seremos nós aquele que dessa vez errou.
Se errei, sou a primeira a me colocar perante a Justiça Divina e a Lei Maior, ajoelho, peço por orientação, peço por perdão e oportunidade de retificar meus erros. Se fui eu a injustiçada, a ofendida, eu também ajoelho e coloco nas mãos da Justiça Divina e da Lei Maior, e peço a Eles (que são a própria Justiça e Lei de DEUS) que tomem conta da minha vida e das situações que me afligem, peço aos pais Orixás que me ajudem conforme minha necessidade e meu merecimento e que Eles em suas onisciências divinas, identifiquem cada erro cometido por mim ou contra mim. Cabe somente a eles julgar e executar, não a mim, pois nem sempre o meu erro foi um erro e nem sempre a ofensa cometida contra mim foi uma ofensa, nunca se esqueçam da outra máxima muito famosa de uma das peças de Shakespeare, que nos mostra o quanto somos ignorantes em matéria de conhecimento e sabedoria:

“Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que sonha nossa vã filosofia".

Daria até para completar um pouco mais essa frase, “há muito mais mistérios entre o céu e a terra, a terra e o embaixo, do que sonha nossa vã filosofia.”
O objetivo desse texto é para que atentemos ao fato de que o ato de julgar já se transformou em hábito em nossas vidas, e às vezes fazemos inconscientemente, sem ao menos perceber que estamos julgando alguém.
Claro que não estamos livres de realizar julgamentos, estamos sempre nos deparando com situações em nossas vidas que precisamos julgar: qual a melhor decisão a ser tomada, qual melhor caminho a seguir, qual melhor atitude a tomar; mas são “situações” e não “pessoas” a serem julgadas, é “algo” e não “alguém”. Da mesma maneira de que se há erros e há erros, também há julgamentos e há julgamentos, então para simplificar e resumir numa só frase eu digo o seguinte: meus irmãos, antes de julgarmos as atitudes e erros do próximo, paremos para pensar e refletir muito acerca dos nossos próprios erros e atitudes!

Juliana Velico - 30/06/2011